AS CERTIFICAÇÕES COMO UM GUIA PARA UMA ALTERNATIVA VERDADEIRAMENTE SUSTENTÁVEL

3 de julho de 2019
por  Administrador

O EQUÍVOCO DA MICRO-GERAÇÃO DISTRIBUÍDA FOTOVOLTAICA COMO SOLUÇÃO SUSTENTÁVEL PARA RESIDENCIAS DE BAIXO DESEMPENHO NO BRASIL

AS CERTIFICAÇÕES COMO UM GUIA PARA UMA ARQUITETURA DE ALTO DESEMPENHO

Segundo o Anuário Estatístico de Energia Elétrica do Ministério das Minas e Energias – 2018, no Brasil o setor residencial é o segundo maior consumidor de eletricidade, com 28,8% (134.368GWh) de participação, atrás apenas do setor industrial com 35,8%. De acordo com o mesmo relatório, o custo médio nacional da eletricidade sem tributos para consumidores residenciais é de R$0,45/kWh.

No país, a média de consumo de energia elétrica por residência é de 158kWh/mês, chegando a 177kWh/mês na região sudeste, e é observada uma relação direta entre o potencial aquisitivo das famílias e consumo energético. Em média, um habitante da região sudeste do Brasil consome em casa 743kWh/ano.

A adoção de métricas como a demanda anual em kWh/m² edificado classificadas por tipo da edificação e uso final, tais como refrigeração, iluminação e equipamentos são comuns nos países desenvolvidos e importantes para melhorar o entendimento do padrão de consumo, bem como suas relações com as características arquitetônicas da construção, clima e perfil do usuário. No entanto, no Brasil faltam estatísticas e métricas oficiais e atualizadas quanto a demanda de energia por tipo e área de edificação.

A qualidade do projeto arquitetônico tem relação direta com a consumo energético para o condicionamento ativo nas residências. No Brasil é comum se observar um padrão de projeto arquitetônico residencial em massa, que desconsidera características como o clima e sub-clima, entorno e padrão de uso. A ignorância dos conceitos de arquitetura bioclimática nos projetos residenciais resulta em casas de baixo conforto e alto EUI (do inglês Energy Use Intensity ou intensidade de uso energético) para o condicionamento ativo.

Dados de 2007 da ELETROBRAS apontam que o condicionamento ambiental ativo somados têm participação de 25% no verão e 15% no inverno no consumo energético médio as residências brasileiras, e estima-se que essa fração aumente graças a climas mais extremos, poluição ambiental e mudança de comportamento.

Os processos de certificação e etiquetagem como o PBE Edifica e o GBC Brasil Casa oferecem aos profissionais um importante guideline para a avaliação do desempenho da edificação. Por terem foco na demanda de energia final, as etiquetas avaliam a performance do envelope, solução arquitetônica e sistemas, contrapondo a esquizofrênica lógica comumente adotada pelos proprietários e alguns designers de que a sustentabilidade, eficiência energética e conforto podem ser atingidos com a simples implementação de geração distribuída por meio de instalação de fotovoltaico e/ou termo solar.  A ignorância do desempenho na fase de pre-design, por crença na geração em loco de energia renovável para a iluminação refrigeração artificiais nas residências como solução, levou a uma considerável queda de qualidade na arquitetura residencial brasileira recente.

Em adição, se do ponto de vista econômico, o payback de um sistema fotovoltaico residencial no Brasil é curto, com aproximadamente 5 anos, graças a alta incidência de radiação solar no território nacional, com potencial produtivo médio de 1500kWh/kWp, combinado ao alto valor tarifário, do ponto de vista de emissões equivalentes de CO2 a figura não é bem assim. A produção de eletricidade por sistemas fotovoltaicos tem cerca de 80g de CO2e/kWh, apenas 27% inferior aos 110g de CO2e/kWh da matriz elétrica brasileira, que tem hidroelétricas como principal fonte. Assim, se considerarmos a vida útil média de um sistema fotovoltaico residencial em 20 anos, seu desempenho ambiental é aproximadamente 3 vezes inferior a seu desempenho econômico.

A forma, orientação e propriedades físicas do envelope da construção são as características da chamada arquitetura bioclimática que mais influenciam seu desempenho. A utilização de simulações computacionais energéticas e de conforto ambiental, ainda na fase de concepção do projeto arquitetônico, oferecem aos arquitetos a capacidade de prever o desempenho do design proposto e suportam a decisão de variantes para a promoção da qualidade do ambiente interno e eficiência energética. O design paramétrico combinado as simulações computacionais e otimização por algoritmos genéticos das variantes da concepção arquitetônica prometem uma nova geração de arquitetura bioclimática de alto desempenho da edificação.

Um outro ponto a ser colocado é que a compensação da alta demanda por eletricidade para refrigeração e iluminação artificiais pela implementação de micro-geração distribuída em nada garante o conforto ambiental nas residências. É fato conhecido que a iluminação natural adequada afeta positivamente a produtividade, bem-estar e concentração. Similarmente, a exposição a ventilação natural e incidência adequada de radiação solar nas residências melhora as condições de salubridade dos ambientes. De forma que a iluminação artificial, nem tão pouco o uso extensivo de AC ou qualquer sistema de condicionamento ativo, substituem uma arquitetura bioclimática de alta qualidade.

O número de casas que buscam certificação de qualidade ambiental vem crescendo significativamente no país, e o desenvolvimento de processos exclusivos para o mercado nacional, como GBC Brasil Casa® e Condomínio® impulsionam a busca por uma arquitetura residencial de alto desempenho autenticamente verde e amarela. Outro instrumento de promoção do desempenho da construção residencial brasileira é a NBR 15575 quem vem tendo sua adoção consolidada entre os profissionais.

“Mas por que certificar se eu posso apenas exigir que meu arquiteto incorpore estratégias sustentáveis em meu projeto? Além do mais, não seria todo arquiteto em teoria capaz de projetar de forma a garantir conforto e eficiência?” A verdade é que NÃO. O processo de certificação como o GBC Brasil Casa® introduz uma metodologia com uma visão holística, tocando todos os tangentes da sustentabilidade. Adicionalmente, a presença de um órgão acreditador de reconhecimento internacional assegura ao contratante que as estratégias adotadas por seu arquiteto e consultores configuram um projeto sustentável e de alto desempenho ambiental e energético.

A próxima pergunta dos clientes é certamente “e quanto custa construir uma casa certificada?”. A resposta que o profissional contratado deverá dar a seu cliente é “e você sabe quanto custa operar e manter uma casa de baixo desempenho?”. Projetos piloto do GBC Brasil Casa® demonstraram redução de até 60% no consumo energético, e 50% no consumo de água. Com acréscimos de custo de construção que vão de 2% a 8% dependendo do nível de certificação pretendido e características do projeto. Já a valorização patrimonial varia de 8% a 15% de acordo com o Green Building Council Brasil. A certificação parece, portanto, também um bom investimento, não somente financeiramente, uma vez que tende a garantir a otimização do custo de operação ao longo do ciclo de vida, mas bem como a garantia da qualidade, conforto ambiental, produtividade e bem-estar do usuário e proteção do meio ambiente.

Da perspectiva do profissional contratado para o desenvolvimento de um projeto residencial, oferecer maior valor agregado no produto entregue garante presença em um mercado cada vez mais competitivo, com crescente informação e expectativa do cliente. Modelos de negócio nos escritórios que estimulem o trabalho colaborativo, projeto integrado, onde profissionais de diferentes especialidades e disciplinas somam conhecimentos é a chave. A possibilidade de ter um consultor de sustentabilidade como parceiro permite que qualquer escritório venda projetos de alto desempenho sem a necessidade ter esse profissional in-house, contando com suporte técnico especializado quando necessário.

Com o aumento da expectativa dos clientes por uma arquitetura residencial comprovadamente eficiente, cresce também o número de profissionais de arquitetura e escritórios especializados em consultoria de avaliação do desempenho da construção e certificação. É o caso do escritório ROCA Arquitetura Sustentável, que desde sua fundação há 8 anos se dedicou no desenvolvimento de projetos próprios de arquitetura residencial de alto desempenho, incluindo a participação em projetos Net-zero energy na Europa e premiação em concursos mundiais. Hoje eles empregam sua expertise na prestação de consultoria e capacitação de profissionais e construtores que buscam ter seus projetos de alto desempenho e certificados.

Julho, 2019


Autor:

Rodrigo Carvalho

Sobre o autor:

Rodrigo é mestre em Sustentabilidade e Eficiência Energética na Construção pela Technische Universität Berlin, sócio fundador do escritório Roca Arquitetura Sustentável no Rio de Janeiro, Brasil e sócio fundador do escritório alemão ENCOBE Consulting em Berlin.

Sobre ROCA e ENCOBE:

Atuando na prestação serviços como: simulações termo energética, de iluminação natural e artificial, CFD, design paramétrico combinado à otimização genética da solução arquitetônica, desenvolvimento de conceito energético e implementação de energias renováveis, e consultoria para as certificações LEED BD+C, GBC Brasil Casa e PDE Edifica, e NBR15575 – Norma de Desempenho e treinamentos, ROCA, em parceria com a alemã ENCOBE Consulting, atuam não somente como designers e consultores mas também como fomentadores da arquitetura sustentável e de alta eficiência energética na capacitação de profissionais multiplicadores do conhecimento.

            

Links:

www.rocaarquitetura.com

www.encobe.com

www.gbcbrasil.org.br/referencial-casa.php

http://www.pbeedifica.com.br/etiquetagem/residencial

 

Rodrigo Carvalho            

Arquiteto | Sócio-diretor

MBA Building Sustainability | LEED Green Associate

Roca Arquitetura Sustentável Ltda
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